O dia 17 de outubro é o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. Há mais de três décadas, numa manifestação em Paris, Joseph Wresinski, expôs a injustiça que é a pobreza, afirmando “cada vez que um homem ou mulher é condenado a viver em extrema pobreza, há uma violação dos direitos humanos. Unirmo-nos para garantir que estes direitos sejam respeitos é o nosso dever solene”. Os dados disponíveis indicam que 783 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, com menos de 1$USD por dia. As mulheres são as mais afetadas pela pobreza, existem 122 mulheres para cada 100 homens com idades compreendidas entre os 25 e os 34 anos a viver em pobreza extrema.

Agarrando o desafio, neste dia o mundo celebra as lutas contra a pobreza, um dos males crónicos do mundo contemporâneo. Este dia serve dois propósitos: ouvir as vozes dos grupos desfavorecidos e subalternizados, e garantir o valor da dignidade humana, assegurando o respeito pelos direitos sociais e humanos fundamentais. Esta mudança paradigmática na afirmação da pobreza como o resultado da violação dos direitos humanos significou um avanço importante em relação à abordagem anterior. Até recentemente, a pobreza era explicada como resultado dos infortúnios coletivos ou individuais; consequentemente, as sociedades tinham o dever de prestar assistência através da caridade, como forma de ultrapassar a pobreza. O novo paradigma transfere a responsabilidade para os governos, que passam a ter obrigação de elaborar estratégias que contribuam para a eliminação definitiva das causas da pobreza.

Embora a forma dominante de pobreza seja a privação económica e material, a pobreza também provoca a privação da dignidade humana e a violação dos direitos humanos. A pobreza limita o acesso a direitos económicos e sociais, tais como a saúde, uma habitação adequada, alimentação, água potável e educação; tendo também um forte impacto nos direitos civis e políticos. De qualquer forma, os direitos humanos não existem se não garantirmos igualmente os direitos da natureza, isto é, de todos os seres vivos e do próprio planeta Terra. Assumindo este posicionamento, questionamo-nos: como e onde acontece a pobreza? Como é que a pobreza é criada nos estados-nação modernos e democráticos?

O nosso mundo, dominado por uma economia neoliberal, testemunha um empobrecimento massivo tanto dos seres humanos como da Terra. No atual sistema económico global tudo é entendido como um recurso. A mercantilização da vida tem vindo a reprimir as nossas capacidades inatas de nos relacionarmos com os outros, de cultivarmos um ethos comunitário, de sermos sujeito coletivo de decisão.
Como o projeto ETHOS tem vindo a enfatizar, a melhor forma de ultrapassar as injustiças sofridas pelos grupos vulneráveis empobrecidos e subalternizados é mudar a abordagem ‘de cima para baixo’ para uma abordagem ‘de baixo para cima’. A Europa encontra-se num processo contínuo de empobrecimento, uma vez que continua a desperdiçar a riqueza das experiências e conhecimentos existentes tanto no continente como fora dele. Insistindo em olhar para a pobreza como um fenómeno essencialmente económico, a Europa perpetua a injustiça social. A pobreza não é inerente aos seres humanos, tal como o desempenho do PIB parece sugerir. Uma interessante abordagem alternativa foi proposta pelo Butão, através do seu índice de “Felicidade Nacional Bruta” (FIB). Em vez de se focar no índice do PIB, que apenas mede o crescimento económico de uma nação com base na sua produção e consumo, a FIB propõe uma filosofia centrada na vitalidade comunitária, no desenvolvimento socioeconómico sustentável, na diversidade cultural e na conservação ambiental.

O Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza é um momento privilegiado para apelar à erradicação da pobreza na Terra, a nossa Casa comum. Este dia apela, simbolicamente, para uma mudança radical dos nossos modelos de democracia, economia e justiça escutando as experiências daqueles que experienciam a pobreza. A erradicação da pobreza é uma questão de direitos humanos; trata-se de reconhecer a importância de permitir que toda a humanidade possa viver com dignidade.Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, 17 de outubro.
Mara Bicas e Laura Brito

O dia 17 de outubro é o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. Há mais de três décadas, numa manifestação em Paris, Joseph Wresinski, expôs a injustiça que é a pobreza, afirmando “cada vez que um homem ou mulher é condenado a viver em extrema pobreza, há uma violação dos direitos humanos. Unirmo-nos para garantir que estes direitos sejam respeitos é o nosso dever solene”. Os dados disponíveis indicam que 783 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, com menos de 1$USD por dia. As mulheres são as mais afetadas pela pobreza, existem 122 mulheres para cada 100 homens com idades compreendidas entre os 25 e os 34 anos a viver em pobreza extrema.
Agarrando o desafio, neste dia o mundo celebra as lutas contra a pobreza, um dos males crónicos do mundo contemporâneo. Este dia serve dois propósitos: ouvir as vozes dos grupos desfavorecidos e subalternizados, e garantir o valor da dignidade humana, assegurando o respeito pelos direitos sociais e humanos fundamentais. Esta mudança paradigmática na afirmação da pobreza como o resultado da violação dos direitos humanos significou um avanço importante em relação à abordagem anterior. Até recentemente, a pobreza era explicada como resultado dos infortúnios coletivos ou individuais; consequentemente, as sociedades tinham o dever de prestar assistência através da caridade, como forma de ultrapassar a pobreza. O novo paradigma transfere a responsabilidade para os governos, que passam a ter obrigação de elaborar estratégias que contribuam para a eliminação definitiva das causas da pobreza.

Embora a forma dominante de pobreza seja a privação económica e material, a pobreza também provoca a privação da dignidade humana e a violação dos direitos humanos. A pobreza limita o acesso a direitos económicos e sociais, tais como a saúde, uma habitação adequada, alimentação, água potável e educação; tendo também um forte impacto nos direitos civis e políticos. De qualquer forma, os direitos humanos não existem se não garantirmos igualmente os direitos da natureza, isto é, de todos os seres vivos e do próprio planeta Terra. Assumindo este posicionamento, questionamo-nos: como e onde acontece a pobreza? Como é que a pobreza é criada nos estados-nação modernos e democráticos?

O nosso mundo, dominado por uma economia neoliberal, testemunha um empobrecimento massivo tanto dos seres humanos como da Terra. No atual sistema económico global tudo é entendido como um recurso. A mercantilização da vida tem vindo a reprimir as nossas capacidades inatas de nos relacionarmos com os outros, de cultivarmos um ethos comunitário, de sermos sujeito coletivo de decisão.

Como o projeto ETHOS tem vindo a enfatizar, a melhor forma de ultrapassar as injustiças sofridas pelos grupos vulneráveis empobrecidos e subalternizados é mudar a abordagem ‘de cima para baixo’ para uma abordagem ‘de baixo para cima’. A Europa encontra-se num processo contínuo de empobrecimento, uma vez que continua a desperdiçar a riqueza das experiências e conhecimentos existentes tanto no continente como fora dele. Insistindo em olhar para a pobreza como um fenómeno essencialmente económico, a Europa perpetua a injustiça social. A pobreza não é inerente aos seres humanos, tal como o desempenho do PIB parece sugerir. Uma interessante abordagem alternativa foi proposta pelo Butão, através do seu índice de “Felicidade Nacional Bruta” (FIB). Em vez de se focar no índice do PIB, que apenas mede o crescimento económico de uma nação com base na sua produção e consumo, a FIB propõe uma filosofia centrada na vitalidade comunitária, no desenvolvimento socioeconómico sustentável, na diversidade cultural e na conservação ambiental.

O Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza é um momento privilegiado para apelar à erradicação da pobreza na Terra, a nossa Casa comum. Este dia apela, simbolicamente, para uma mudança radical dos nossos modelos de democracia, economia e justiça escutando as experiências daqueles que experienciam a pobreza. A erradicação da pobreza é uma questão de direitos humanos; trata-se de reconhecer a importância de permitir que toda a humanidade possa viver com dignidade.


Maria Paula Meneses, Mara Bicas e Laura Brito